Fibrenamics Azores

Recursos endógenos – Fibra de Conteira

Conteira, jarroca, roca, cana-roca e gengibre-selvagem são alguns nomes comuns portugueses pelos quais esta espécie é conhecida.

Em termos científicos, a conteira é uma monocotiledónea herbácea, vivaz, com 1 a 2,5 metros de altura e rizoma tuberoso. Apresenta folhas até 50×20 centímetros e flores grandes amarelas com filamentos vermelhos e fragrantes, dispostas em densas espigas terminais (até 40 cm). Os frutos são cápsulas de coloração intensa laranja que ao abrir mostram as sementes de cor carmesim.

A conteira pertence à mesma família do gengibre e em 1823 foi morfologicamente descrita no volume nono da obra “The Botanical Register” a partir da iconografia de um exemplar proveniente da Índia e cultivado num Jardim em Inglaterra.

A planta invasora que conquistou os Açores
Em 1856 esta espécie já fazia parte do conjunto de espécies existentes no Jardim de Sant’Ana, na Ilha de S. Miguel. Atualmente está já presente nas nove ilhas dos Açores.

A conteira tem a sua origem nas florestas húmidas da parte oriental dos Himalaias (Nepal, Butão, Índia), tendo-se tornado também invasora noutros arquipélagos de origem vulcânica, com solos férteis e florestas húmidas, como a Nova Zelândia, o Havai, e a Ilha Reunião para onde foi levada como planta ornamental.

A adaptação desta espécie a habitats semelhantes aos da sua região de origem, a ausência de inimigos naturais e algumas especificidades da sua biologia explicam o seu comportamento invasor. O facto de não ser praticamente atacada por herbívoros, parasitas ou outros agentes patogénicos, como fungos, faz com que as suas folhas se mantenham intactas.

“O clima ameno dos Açores propicia o seu desenvolvimento vegetativo, dando origem a densos tapetes rizomatosos mono-específicos; e, a apesar de as flores poderem ser polinizadas por borboletas, elas não necessitam de polinizadores para formar semente. Trata-se por isso de uma espécie auto-fértil que produz semente em profusão sendo as sementes posteriormente dispersas por aves, tipicamente abundantes e diversificadas em ilhas oceânicas”, refere Helena Cristina Vasconcelos, professora e investigadora do Departamento de Ciências da Física, Química e Engenharia da Universidade dos Açores, que, juntamente com os investigadores Maria João Pereira, Maria Gabriela Meirelles e Roberto Amorim, tem desenvolvido um estudo aprofundado sobre esta espécie.

Atualmente, a conteira ocupa o 40º lugar na lista das 100 piores espécies exóticas invasoras a nível mundial (100 of the World’s Worst Invasive Alien Species), e nos Açores constitui-se como uma das mais graves plantas invasoras.

A Fibra de Conteira e as suas aplicações
A fibra de conteira tem várias aplicações, cuja utilização mais óbvia é como matéria-prima para os têxteis. Por outro lado, as fibras de conteira podem também ser usadas em setores industriais, utilitários do dia-a-dia, embalagens, fabrico de papel, e materiais compósitos com muitas e variadas aplicações, incluindo o fabrico de estruturas para a construção civil e até painéis do habitáculo de automóveis.

“Um material compósito de origem renovável, biodegradável, que incorpore, como fase de reforço as fibras de conteira, como substituição do uso de fibras de vidro e de carbono, combinadas com o uso de matrizes, também elas biodegradáveis (e.g. biopolímeros), é uma alternativa possível que está presentemente a ser investigada pelo nosso grupo de investigação (Universidade dos Açores – Departamento de Ciências da Física, Química e Engenharia – Departamento de Biologia)”, conta Helena Cristina Vasconcelos.

Estes materiais avançados constituem, assim, uma alternativa ao aço, à madeira ou ao plástico e, por conseguinte, uma solução viável para componentes estruturais em áreas como engenharia, medicina, desporto, arquitetura, design, entre outras.

A professora e investigadora da Universidade dos Açores destaca ainda que “de momento, e no seguimento dos estudos preliminares que temos realizado, as fibras da conteira, extraídas do caule da planta, têm sido usadas no fabrico de compósitos, em:

Objetos utilitários do dia-a-dia, nomeadamente peças e artigos de utilização descartável (ex. pratos, copos, tigelas, talheres, etc.); cuvetes de base ao acondicionamento e empacotamento de alimentos (ex. vegetais frescos, carnes e frutas, entre outros) com a possibilidade decorar as superfícies com pinturas alusivas à preservação ambiental, cultura, marcas, regiões, turismo ou empresas, etc

Papel ou papelão (com diferentes cores, texturas e espessuras)

Briquetes de elevado poder calorífico, para a produção de energia, em alternativa à lenha e ao carvão”

A importância da exploração da Fibra de Conteira
A utilização deste recurso natural no desenvolvimento de produtos de valor acrescentado é ainda considerada por alguns investidores como algo novo na ciência necessitando, por isso, de mais esclarecimento e aprofundamento, especialmente no que respeita aos mercados dos produtos naturais, que contam já com a concorrência de artigos similares já consolidados no mercado como são exemplo as fibras de sisal, de cânhamo, da folha do ananás, entre outras.

Ainda assim, é já internacionalmente reconhecida a importância da valorização da conteira. “A Comunidade Europeia, através dos Programas Operacionais Horizonte 2020, é objetiva nesta matéria, bem como o já anunciado compromisso da ONU – Agenda 2030. Daí a incontestabilidade dos estudos e ensaios científicos direcionados ao aproveitamento e valorização da conteira” – salienta Helena Vasconcelos.

Para a Região dos Açores, segundo Helena Cristina Vasconcelos, “consideramos [investigadores da Universidade dos Açores] ser urgente e importante, em primeira instância, projetar os Açores como uma das regiões do mundo pioneira na promoção da formação e qualificação da investigação de base científica e tecnológica na ciência dos materiais, e consequentemente na criação de riqueza”.

Em termos globais, a educação, no que concerne aos valores ambientais e o equilíbrio desejado na biodiversidade, justifica um audaz empenho da sociedade na valorização da conteira. Esta questão é “incontestável, indiscutível e de aceitação universal” assegura a professora da Universidade dos Açores.

A operacionalização do projeto da valorização da conteira potenciará conjugados esforços entre diversas entidades, congregando centros de investigação, sociedade civil e governo numa exemplar iniciativa de interligação e aproveitamento de sinergias e recursos.

“Uma colaboração essencial”
A Fibrenamics Azores promoveu recentemente, juntamente com a Universidade dos Açores, um workshop no polo de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, financiado pela DRCT, e com a colaboração do Centro de Biotecnologia dos Açores, Fundação Gaspar Frutuoso e o SINEGE, onde se debateram formas inovadoras de passar ideias ou produtos, com origem na investigação feita nas Universidades e Centros de Investigação, para o mercado.

A colaboração entre a Universidade dos Açores e a Fibrenamics Azores “tem-se revelado essencial para o crescimento do nosso projeto” salienta Helena Cristina Vasconcelos. “Sendo a Universidade do Minho atualmente detentora de um enorme know-how em fibras naturais e nas suas mais recentes e inovadoras aplicações, apraz-nos dizer que o acompanhamento e o aconselhamento que nos têm prestado, não só como parceiros de projetos, mas também como dinamizadores do conceito “da natureza para o mercado”, é para nós um enorme privilégio e também uma oportunidade, enquanto investigadores e docentes da Universidade dos Açores, de colaborar e partilhar interesses comuns com outros cientistas de renome internacional e com laboratórios de investigação do top mundial”, acrescenta ainda.

A participação na Comissão Científica do ICNF 2015 – International Conference on Natural Fibers, realizada em Ponta Delgada, abriu a porta aos Açores para o mundo das fibras e, no seguimento desse evento, muitas outras iniciativas foram surgindo.
No âmbito desta parceria com a Fibrenamics, “o nosso grupo estará certamente representado na ICNF2017, cujo tema é ‘Materiais Avançados para um mundo mais verde’, com novos desenvolvimentos acerca do potencial das fibras da conteira na construção de um mundo mais verde para as futuras gerações”, remata Helena Cristina Vasconcelos.