Artigo de opinião

António Lúcio Baptista

Cancro e doenças crónicas

Dentro das doenças que conhecemos, geralmente categorizadas em dois grandes grupos – agudas e crónicas – há algumas que vão passando de um grupo para outro, como o HIV e alguns tipos de cancro. Esta categorização é simplista e dá poucas informações em como tratar eficazmente.

Também dentro das doenças crónicas há subdivisões: por um lado há doenças “intuitivas” de tratamento empírico e que necessitam de discussão quanto à sua origem e tratamento a seguir, como a doença de alzheimer, a fibromialgia ou cancros raros.

Outras, pelo contrário, são bem conhecidas e tratadas com “precisão” (medicina baseada na evidência científica), como o diabetes tipo II, HIV e alguns tipos de cancro, nomeadamente os sanguíneos, alguns cancros cutâneos ou leucemia mieloide crónica, por exemplo. Sabemos, no entanto, que mais cedo ou mais tarde a investigação científica nos vai trazer luz sobre algumas destas patologias o que as poderá fazer mudar de campo. Muitas destas doenças estarão porventura relacionadas com modelos genéticos do próprio individuo ou ainda com factores do meio envolvente.

Enquanto nos grupos ainda não completamente clarificados são necessários vários especialistas e discussão da situação, os casos definidos como de “precisão” terão no futuro de ser orientados por serviços de doenças crónicas com o fim de baixar os custos. Mesmo quando a cura de um cancro não é possível, a terapia química pode hoje controlar e manter por muito tempo o doente em vida ativa, sendo considerado um doente crónico.

Quais parecem ser, além destes serviços específicos para doentes crónicos, os principais desafios? Sem dúvida que a adesão à terapêutica é um factor essencial. Aí, as novas tecnologias da comunicação podem ter um papel fundamental e serão de máxima utilidade.

No âmbito da terapia têm sido detetados alguns pontos negativos por parte dos doentes, desde logo a dificuldade em compreender o risco/benefício, a toma simultânea de medicamentos, efeitos colaterais indesejáveis e o tempo de latência entre o início da terapia e o aparecimento de resultados.

Existe, no entanto, uma corrente de sentido contrário a esta da passagem de doença aguda para crónica e que tenta transformar doenças crónicas em agudas, o que, embora pareça paradoxal, teria por objetivo a sua cura. Este caminho está já a ser percorrido.

O problema dos custos

Como se poderão controlar os custos de tratamento de cada vez mais doentes crónicos que colocam pressão nos orçamentos dos Estados?

Segundo alguns estudos, há que tomar decisões políticas no sentido de diferenciar os hospitais para doentes agudos e crónicos. Pode verificar-se que acima dos 50 anos 39,43% da população apresenta doenças crónicas e 70,54% tomam medicamentos.

A ciência nacional e a nanotecnologia em particular podem dar um contributo através de nanoparticulas que serão agentes de transporte de princípios ativos ou ainda auxiliares nos testes de imagem, ou ainda em nanosensores úteis para testes biológicos.

Este novo paradigma não deve ser encarado como um fardo e, como referiu o professor Bloom (“Um pacto para a saúde”, Gulbenkian), os países devem, em vez de se vitimizarem, colher o benefício de manter muitas destas pessoas vivas e ativas. Os idosos representam um “grande capital social” pela experiência, a liderança e autoridade moral que possuem.

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