Projetos com Fibra

Textile Tower

O projeto Textile Tower é o resultado de uma pesquisa interdisciplinar que envolveu a colaboração entre o Centro para a Informação Tecnologia e Arquitetura (CITA), na Dinamarca, o departamento para o Design Estrutural e Tecnologia (KET) da Universidade de Artes de Berlim, a Plataforma Internacional Fibrenamics da Universidade do Minho, a Essener Labor für Leichte Flächentragwerke da Universität Duisburg-Essen, e a empresa têxtil AFF – A. Ferreira & Filhos, SA, em Caldas de Vizela.

A arquitetura não é estática
O projeto Textile Tower está inserido dentro de um megaprojeto denominado de “Complex Modeling” (Modelação Complexa) e tem como propósito o desenvolvimento de estruturas híbridas de forma a criar uma estrutura resistente e dinâmica. Para isso, foi construída uma torre em malha com cerca de 10 metros de altura, que esteve em exibição pela primeira vez no Museu de Design da Dinamarca, em Copenhaga, no ano passado, e foi visitada e apreciada por milhares de visitantes.

O conceito de resiliência foi escolhido como primeiro driver para o design do projeto, sendo, neste contexto, entendido como a capacidade de recuperar ou se ajustar às alterações ou a estímulos externos. Especificamente, isto implica ser capaz de suportar não apenas peso próprio, mas cargas vivas, como o vento. A estratégia de design consistiu em desenvolver estruturas em que a resiliência fosse definida como a capacidade do material em absorver energia quando deformado elasticamente e libertar essa energia após a descarga. Este requisito de design poderá vir a ser um ponto de partida para um potencial de aplicabilidade na indústria.

A arquitetura, que é tradicionalmente caracterizada como sendo estática, passa, com esta abordagem, a ganhar o conceito de adaptabilidade, reduzindo a ideia de rigidez e estaticidade, permitindo assim deformações e minimizando o uso de material.

Arquitetura, design e engenharia têxtil de mãos dadas
Numa das reuniões do programa internacional COST (European Cooperation in Science and Technology), os membros da CITA endereçaram um convite ao professor Raul Fangueiro, coordenador da plataforma Fibrenamics, para participar no desenvolvimento de uma torre com cerca de 10 metros onde se pudesse aliar a arquitetura, a arte e a engenharia têxtil.

Neste sentido, o professor Raul prontificou-se a aceitar o convite, uma vez que se tratava de um projeto promissor e a Fibrenamics está sempre aberta a novos desafios. Segundo descreve Raquel Carvalho, investigadora Fibrenamics responsável por este projeto, “os colegas da CITA estiveram nas instalações da Fibrenamics durante 3 dias onde desenvolvemos no nosso tear algumas estruturas, segundo alguns requisitos previamente estabelecidos: ela tinha de ser flexível, no entanto não podia ser tão flexível ao ponto de com o vento ou chuva ela não conseguir suportar-se”.

Pretendia-se, assim, produzir uma estrutura toda em malha e que possuísse canais onde varões em fibra de vidro fossem introduzidos e permitissem, assim, fazer a sustentação da torre na vertical. “Nós fizemos algumas estruturas até para eles verem o nível de configuração da malha, se tinha a textura pretendida, se era transparente… de todas as estruturas desenvolvidas foi selecionada a que reunia melhores propriedades”, referiu Raquel Carvalho. Antes, porém, já havia sido realizada uma pesquisa por parte dos responsáveis da CITA pelo projeto, uma vez que, como a torre iria ser exposta ao ambiente, tinham de ser reunidas algumas caraterísticas, para que ela não se degradasse. Assim sendo, optaram pela utilização de poliéster de alta tenacidade.

A partir daí foi necessário encontrar um parceiro industrial que estivesse disposto a colaborar, já que a Fibrenamics apenas detém uma máquina de prototipagem. Surgiu, desta forma, a parceria com a AFF. O design da torre ficou a cargo da CITA, os ensaios de caraterização das propriedades mecânicas da estrutura selecionada ficaram à responsabilidade da Fibrenamics, bem como de uma Universidade Alemã (Universität Duisburg-Essen), que também realizou ensaios de tração multiaxial. A AFF participou numa fase mais avançada do desenvolvimento da Torre, tendo por base o desenvolvimento prévio realizado pela equipa de investigação em Materiais Fibrosos da Fibrenamics. Filipa Monteiro, da AFF, esclarece que “o desenvolvimento da malha teve duas fases distintas: o desenvolvimento da estrutura de malha em si, que cria todo o impacto visual, transparência e efeito estético/dinâmico que se pretendia (desenvolvido pela Fibrenamics); e a criação de soluções de engenharia que permitissem a colocação de um ‘esqueleto’ em materiais compósitos (produzidos por entidades externas) no interior da malha”. Depois de produzidos, os módulos da torre foram enviados para a Dinamarca onde decorreu a montagem e exposição da torre.

Afinal “a têxtil não é só vestuário”
Na ótica da Fibrenamics este projeto trouxe essencialmente reconhecimento, já que através dele foi possível provar que a área têxtil não está apenas confinada ao vestuário. A técnica utilizada pela Fibrenamics para a produção das estruturas foi uma técnica têxtil totalmente convencional. No fundo consistiu, em, numa só etapa, construir vários tipos de estruturas, o chamado patchwork, ou seja, a funcionalidade onde é requerida.

“No fundo a Fibrenamics mostrou que a têxtil não é só vestuário, pode ser arte e arquitetura”, assegura ainda a investigadora da Fibrenamics. A clara distinção está nos materiais utilizados, que têm propriedades mecânicas adequadas para estarem expostos ao sol, à chuva ou à neve, ou seja, são capazes de resistir às variações climatéricas.

Para a AFF, este projeto serviu como uma via de trabalho cooperativo na criação e desenvolvimento de novos conhecimentos na área têxtil. Tal como Filipa Monteiro refere, “a transferência tecnológica inerente a atividades desta natureza permitiu à AFF trabalhar a capacidade criativa numa área que, embora usando as mesmas tecnologias e equipamentos do seu ‘core business’, tem necessidades e requisitos distintos, abrindo novos horizontes de atuação à empresa”. Filipa Monteiro destaca ainda que “este projeto demonstra o grande potencial que as estruturas híbridas têm para aplicações na arquitetura”.

Deste projeto resultou um artigo apresentado na conferência “VI International Conference on Textile Composites and Inflatable Structures – Structural Membranes 2015” onde a adesão por parte do público foi bastante positiva.

Nas palavras de Mette Thomsen, designer envolvida no projeto, a Torre “demonstrou o potencial da aplicação dos materiais têxteis flexíveis”, podendo prever-se que, “a médio-longo prazo a utilização destes novos materiais será prática no setor da arquitetura e da construção”.

Próxima paragem: Guimarães
Com base nos resultados promissores deste projeto, optou-se pela continuidade do mesmo, estando neste momento em fase de desenvolvimento de uma nova abordagem. A Torre terá um design diferente, mas o conceito irá manter-se o mesmo. A AFF irá ter uma parte cooperante e ativa no desenvolvimento quer da malha, quer das soluções de engenharia, tendo sempre por base a aquisição de conhecimento adquirido com a experiência anterior.

A montagem e exposição desta nova Torre irá ocorrer ainda este ano, em Guimarães.

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Hybrid Tower